23/11/2011

ninguém

ninguém.
ninguém vem.
ninguém vem e
você sabe bem
sabe que a luta
não cessa
que a vida
não pára
que a solução
não se apressa.

10/08/2011

Dança

Dorme em mim
No peito, velado,
Um choro rasgado
Um querer sem fim

Mexe aqui
Uma corda afinada,
'inda que calada
Estalo em si

E então eu entro,
Profundo, no centro,
Procuro, enfrento
Rebento lá dentro,
Provoco o sair

Já ali na saída,
Reconheço a vida,
Pra lá de sentida,
Que bate e convida,
À dança cair

E eu danço e tento,
Improviso, invento,
Um passo no espaço,
Um samba a brandir

26/12/2010

escolha

Não
Escolha não
Não escolha não
Não escolha não
Não encolha
escolha não.

Encalhe não
No encaixe
Não encane não
Caiba no chão
Descole então

Calhe não
Não cale não
Não entale vão
Colha
Do chão

Escale do chão
Escole do vão
Escolha não
Não encolha
Não escolha não

16/12/2010

nunca

O nunca é palavra absurda
Palavra que não me cabe,
Não nos cabe.
Nunca é elástico temporal rasgado,
o esticar da existência sem medida.
Representação do vazio,
morte do querer,
nunca é antônimo da vida.
Mete medo por não estar no amanhã.
Talvez o nunca seja combustível,
advérbio traiçoeiro que nos enche de ganas.
Nos move à transgressão fronteiriça
entre o ser e o não-ser
O nunca, quase sempre, precede uma pergunta:
Será?
E assim ficamos, sem resposta,
à espera de um talvez.
Talvez uma dança
Talvez um abraço
Talvez um beijo.

24/11/2010

Paul

Paul vive!
Ao contrário do que disse LP em rotação contrária.
Macca nasceu em rotação contrária e já sabia aos 20 o que seria aos 64!
Viveu e deixou viver.
E não quer deixar morrer essa beatlemania.
Feito criança, canta, pula, tropeça e se levanta.
Navegando como poucos o mar do tempo,
verdadeiro capitão de submarino.
Sabendo como poucos do ontem, do hoje e que do amanhã nunca se sabe,
Fazendo do público seu oceano, elixir da vida.
É de onde tira tanta energia,
atravessando gerações de fãs,
Disposto a arrancar-nos mais uma lágrima,
mais um yeah yeah yeah.
No dia em que descer do palco,
será pássaro negro a cantar na noite.

16/11/2010

sapatos

Vista essa camisa que vai lhe cair bem.
de onde veio essa hão de vir mais de cem,
basta arriscar-se um pouco, o mínimo que já tem.

Experimenta essa calça e não repara a medida,
vê que é justa a barra e nem está muito puída.
S'enfia as mãos no bolso, já é pronta a saída.

Se é seu o que não preciso, eis um par de meias.
vêm do fundo do armário, de onde aranhas fazem teias.
Do tecido antes grosso e do cano sem elástico,
vejo o melhor de mim, o meu trajar mais clássico.

Só não dou os meus sapatos porque estes não lhe calçam,
Caminha com tuas pernas e anda o melhor que façam.
O que tracei é meu, cada centímetro, polegada.
Deixei p'atrás sem ver, o meu passado, minha passada.

31/10/2010

incauto ou dois tempos

O preço que se paga é pra lá de alto
Do rompimento este que vai além dum salto
E ainda que se diga não passar de incauto
não afirma ser tal o último ato.

E em salto, cai-se duro lá pra dentro
Rumo a si bem mais próximo do centro
Afora tudo e todos, vê-se mais de perto
Não confia, porém, ser aquele o rumo certo.
...
E de dentro atina uma explosão
Centrifuga em sangue o coração
Desafio fino ao ego, uma prisão
Retira-lhe por baixo todo chão

E de nova, perde-se de si
Incontém-se a esperar bendito 'sim'
Gêmea alma, que em troca deu-se aqui
E ao sinal, decretar querido fim